Artigo: Andar, Falar e Pensar

March 11, 2015

 

(Relação entre) ANDAR, FALAR E PENSAR

 

     São incontáveis os aprendizados que temos ao longo da vida. Vários deles são fundamentais para sermos identificados como seres humanos. Nos três primeiros anos de vida, estes aprendizados borbulham e servem como alicerce para tudo que será aprendido ao longo da vida.

     A busca pela posição ereta exige um ano de trabalho árduo desde o nascimento. A liberdade para explorar ambientes e a percepção da confiança dos adultos que cercam a criança propiciam seu fortalecimento físico e emocional para arriscar-se diante desse primeiro grande desafio. A habilidade motora sem dúvida é imprescindível, mas sem a confiança, passada pelos pais de forma silenciosa e amorosa, a criança não teria coragem para enfrentar o mundo e locomover-se sobre dois membros.

     O desenvolvimento neurológico-motor (físico, portanto) se dá de forma crânio-caudal: a criança firma o pescoço, o tronco (pode então rolar e sentar), as pernas (engatinhar) e fica em pé. Ao ANDAR, ela tem as mãos livres para atuar no mundo e com a postura ereta, o posicionamento da laringe, pulmões e cavidade oral permite que alcance outro aprendizado fundamental à identidade humana: o FALAR.

     A fala abre as portas para o mundo da comunicação e das relações humanas. A função social da fala se inicia assim que a criança nasce, com o choro e o desenvolvimento mecânico tem início com a amamentação: a sucção é o primeiro e mais completo exercício para o fortalecimento da musculatura oro-facial.

     Com alguns meses, o bebê já começa a “experimentar” os movimentos sonorizados com a boca. Nessa fase, o balbucio, ela consegue realizar todos os sons de todos os idiomas. Com o desenvolvimento cognitivo, a criança fica mais atenta ao seu redor e começa a imitar os sons que ouve, ainda sem intenção comunicativa.

     A imitação não se limita aos fonemas: a criança imita a prosódia e a melodia da fala do adulto, entonações, sotaques, expressões faciais, velocidade de fala, etc. Nesse período, portanto, é fundamental que ela receba um bom modelo de fala, tanto físico, com a articulação correta dos fonemas, cognitivo, com o uso correto da gramática e emocional, com o tom de voz condizente com o conteúdo da fala e esta soando de forma verdadeira, sem infantilizações e “mentiras brancas”, pois rapidamente ela começa a perceber pequenas incoerências e inverdades e forma, assim, sua rede de confiança.

     Assim como para o desenvolvimento do andar existe um critério físico-muscular (crânio-caudal), a tonificação da musculatura oro-facial segue o critério ântero-posterior. A criança domina inicialmente o controle muscular dos lábios e é capaz de produzir os fonemas chamados labiais (/p/, /b/ e /m/). Não é coincidência que as primeiras palavras do universo infantil ao redor do mundo sejam com esses fonemas. Esse controle se inicia por volta dos 18 meses de vida e ocorre gradual e sucessivamente (com fonemas lábio-dentais, alveolares  e palatais) até por volta dos 4 ou 5 anos de idade (dependendo do sexo, sociabilização, exigência do ambiente, etc), com a aquisição do grupo consonantal com R.

     Enquanto isso, ocorre paralelamente outro desenvolvimento que podemos, erroneamente, considerar como sendo o mesmo: o desenvolvimento da Linguagem. Quando a fala deixa de ser exclusivamente mecânica e passa a ter uma função comunicativa, tem início o desenvolvimento da Linguagem Oral. Nesse momento, podemos considerar que a criança está começando a PENSAR. A fala, que até então era solta e fragmentada começa a se organizar. A criança consegue nomear seres e objetos (usa inicialmente apenas substantivos), mesmo que seja através de onomatopeias (piu piu, au au) por categorias (todas as aves são “piu piu”). Com o tempo, as nomeações ficam mais específicas (“piu piu” e “co có”) até chegar aos substantivos propriamente ditos. Nesse percurso, começa a reconhecer ações (usa verbos) e então, qualifica os substantivos (uso de adjetivos). Nessa fase, o vocabulário da criança costuma aumentar significativamente, podendo passar de 50 a 300 vocábulos num período de 6 meses.

     Agora, por volta dos 36 meses de idade, ela consegue formar frases e conforme seu pensamento vai se organizando mais, as frases vão ficando mais complexas e, também por volta dos 4 ou 5 anos de idade, ela é capaz de se fazer entender por qualquer adulto. Aqui a diferenciação entre os sexos costuma ser significativa: as meninas falam de forma organizada mais cedo que os meninos.

     Ao aprender a ANDAR, a FALAR e a PENSAR, o caminho para os outros aprendizados está esboçado. O desenvolvimento saudável destes três aspectos da vida humana é um vislumbre de um ser humano que está se formando e um dia será capaz de exercer sua autonomia no mundo, com liberdade de movimento de expressão e de raciocínio. Um ser humano livre.

Please reload

Últimas Postagens

PSICOPEDAGOGIA E PSICOMOTRICIDADE: ENTRELAÇAMENTO NECESSÁRIO DE CONHECIMENTOS

March 2, 2016

Flávia Teresa de Lima
Terapeuta Ocupacional – Pedagoga
Psicopedagoga
Mestre em Psicologia Educacional

 

Introdução
Este artigo apresenta o resultado de...

1/10
Please reload

Posts Recentes
Please reload

Siga-Nos
Please reload

Procura por Tags
Please reload

Histórico
  • Facebook clássico
  • Instagram clássico

© 2015 por Design DR. Todos os direitos reservados para a equipe Falando em Educação.