PRÁTICA REFLEXIVA: CAMINHO PARA AUTONOMIA E AUTORIA

March 13, 2015

 

 

Terapeuta Ocupacional – Pedagoga

Psicopedagoga

Mestre em Psicologia Educacional

 

PALAVRA AO LEITOR

Quero apresentar algumas ideias sobre a ação humana e sobre o pensamento.

Quando fiz o curso de Terapia Ocupacional, debrucei-me sobre o assunto visto que esta área do conhecimento tem seus pressupostos na atividade realizada no espaço terapêutico. Tempos depois, a Psicopedagogia me retorna ao tema, sob outro ponto de vista.

Penso ser hora de começar a organizar algumas ideias...

 

RESUMO

O tema deste artigo é a prática reflexiva que leva o profissional das áreas da saúde e da educação à autonomia e autoria de pensamento. Temos por objetivo fazer uma reflexão sobre o “fazer” e o “pensar”, sobre a objetividade e a subjetividade. Concluímos que uma prática reflexiva favorece espaços de autoria de pensamento e autonomia para o aluno e para o professor, para o paciente e para o terapeuta, para o pai e para o filho, enfim, para o ensinante e para o aprendente.

 

A OBJETIVIDADE E A SUBJETIVIDADE: CONSIDERAÇÕES SOBRE O “QUE FAZER” E O “PENSAR”´

Para Karl Marx é pela práxis, ação e reflexão, que o homem se humaniza. Assim, considera alienado o homem que não consegue objetivar sua subjetividade através da ação ou nem subjetivar sua objetividade, colocando-se e se reconhecendo nessa ação. O alienado é, assim, aquele que não constrói sua história, ou porque não a faz, ou porque não se reconhece na mesma.

Fazer algo, por fazer, como um ato puramente mecânico, não permite ao homem reconhecer-se no que realizou. Em Paulo Freire (70, p.37), corroborando com esta ideia, encontramos que “não se pode pensar em objetividade sem subjetividade. Não há uma sem a outra [...]”. Para Freire, objetividade e subjetividade dicotomizadas são, na verdade, objetivismo e subjetivismo.

Paulo Freire, em sua obra Pedagogia Do Oprimido, concebe o homem enquanto ser do “quefazer” e acrescenta “mas, se os homens são seres do quefazer é exatamente porque seu fazer é ação e reflexão. É práxis. É transformação do mundo”. E explica:

São seres do quefazer (os homens), diferentes, por isso mesmo, dos animais, seres do puro fazer. Os animais não ‘ad-miram’ o mundo. Imergem nele. Os homens, pelo contrário, como seres do quefazer ‘emergem’ dele, objetivando-o, podem conhecê-lo e transformá-lo com seu trabalho (p.171).

Podemos supor, então, que objetividade e subjetividade devem caminhar juntas. Isto é importante para que, ao analisarmos uma atividade, dentro de um processo pedagógico e/ou terapêutico, contemplemos sua função modificadora e criadora que emana de quem a realiza.

Para Philippe Perrenoud (2002, p.330-31), “refletir durante a ação consiste em se perguntar o que está acontecendo ou vai acontecer, o que podemos fazer, o que devemos fazer, qual a melhor tática, que desvios e precauções temos que tomar, que riscos corremos, etc”

Perrenoud usa o termo prática reflexiva em seu livro A Prática Reflexiva No Ofício De Professor (2002), referindo-se à postura a ser adotada pelo professor enquanto profissional reflexivo da área da Educação. O autor não fala sobre uma ação que é pensada, organizada, elaborada apenas antes de ser concretizada. Na prática reflexiva, a ação é pensada antes, durante e depois de sua concretização, pelo ser agente, aquele que a realizou e que dela se apropria.

Entendendo que a ação, de certa forma, concretiza um pensamento, e este, a torna uma ação reflexiva, vamos refletir sobre “o pensar”. O pensar é a subjetividade que se objetiva através da ação.

Não há como não nos lembrarmos do Cogito de René Descartes: “Penso, logo, existo”

[...] O desdobramento ‘natural’ do ‘penso, logo existo’ é: existo ‘como coisa pensante’. Do pensamento ao ser que pensa – realiza-se, então, o salto sobre o abismo que separa a subjetividade da objetividade [...].

[...] A única certeza contida no Cogito é da existência do eu enquanto ser pensante. (Os Pensadores – Descartes, vol 10, 2000, p.21-22).

Descartes concebe o “pensar”, de forma mais complexa, a partir do momento que acrescenta o “sentir”, enquanto parte integrante do pensamento, como se fosse um desdobramento natural do mesmo e que lhe garante a subjetividade; pois o “sentir” é individual, é interno e é o que Descartes definiu como a dimensão do pensamento que envolve a alma.

Nessa linha, Didie Anzier, no livro O Pensar: do eu-pele ao eu-pensante (2002), pontua que pensamos primeiro o pensamento do outro, para aos poucos, através do nosso Eu-Pensante (nossa parte psíquica, nosso espírito), termos a necessidade de organizarmos nosso próprio pensamento para que este se sobreponha ao do outro. Os pensamentos precedem, assim, o pensar; e este último funciona como organizador dos primeiros.

Talvez seja este o processo de autoria do pensamento.

 

PRÁTICA REFLEXIVA: CAMINHO PARA AUTONOMIA E AUTORIA

Para a Psicopedagogia, estas idéias são importantes por envolverem o significado da ação e do pensamento para o ser humano. Você é o que pensa e o que realiza.

Este é um momento importante na constituição do sujeito aprendente, entendido como aquele capaz de se reconhecer autor de seu pensar e, através deste, capaz de organizar os seus pensamentos. Agora ele é o responsável pelo que pensa e o outro só terá acesso ao seu pensamento se ele o permitir. Aprenderá a guardar e mostrar o que lhe for conveniente; e, através do que mostrar-guardar será reconhecido pelo outro.

Estamos falando de autorias. Não só do pensar, mas também de fazer. O que se pensa, de algum modo é concretizado com gestos, palavras, aprendendo, ensinando, criando, mostrando, guardando, em um movimento saudável de reconhecimento de si próprio, de si pelo outro e do reconhecimento do outro. É imprescindível a um desenvolvimento sadio do ser humano que haja disponibilidade interna de reconhecimento de autorias alheias. Isto faz parte da autonomia. Há uma descentralização de si e, conseqüentemente, uma possibilidade de olhar e interagir com o outro, aceitando-o.

Se a autonomia parte do reconhecimento do outro, a autoria parte do reconhecimento de si. Alícia Fernndez, no livro O Saber Em Jogo: a psicopedagogia propiciando autoria de pensamento, explica que “a autoria de pensamento é condição para a autonomia da pessoa e, por sua vez, a autonomia favorece a autoria de pensar. À medida que alguém se torna autor, poderá conseguir o mínimo de autonomia”.

Através de vários instrumentos disponíveis, podemos nos conscientizar, assumir e mostrar nossas autorias de pensar e fazer, percebendo autorias alheias às nossas. Isto nos torna seres criativos, lúdicos, responsáveis por nossos desejos e, assim, autônomos.

A Psicopedagogia propicia espaços de autoria de pensamento para o aluno e para o professor, para o paciente e para o terapeuta, para o pai e para o filho, para o empregador e para o empregado, enfim para o ensinante e para o aprendente. Melhor ainda, para o aprendensinante. Mudar de papel, propiciar essa inversão, requer autonomia e sugere autorias.

 

 

BIBLIOGRAFIA

FERNÁNDEZ, A. O saber em jogo: a psicopedagogia propiciando autoria de pensamento. Porto Alegre: Artmed, 2001a.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1970.

OS PENSADORES: Marx. Vol.1. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 2000.

PERRENOUD, P. A prática reflexiva no ofício de professor: profissionalização e razão pedagógica. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.

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