A PSICOPEDAGOGIA DENTRO DA ESCOLA GARANTINDO A INCLUSÃO DA CRIANÇA COM DISLEXIA

March 25, 2015

(artigo publicado no site Dislexia, e agora?)

 

Introdução

          Buscamos neste artigo discutir sobre o lugar que ocupa a criança que apresenta problemas na aprendizagem e, através do relato de um caso, percorremos um caminho de reflexão sobre a atuação psicopedagógica no contexto escolar, nestes casos.

 

O lugar da criança com problema de aprendizagem

          Gilberto Velho (2003), ao fazer uma análise sobre o problema de pessoas “desviantes”, concluí que, pelo senso comum, o desvio é um mal do indivíduo e que pode ser tratado sob a ótica médica, com maior ou menor probabilidade de cura, dependendo da “doença” existente; e o desviante é um indivíduo com determinada patologia.

          A ideia de comportamento “diferente” implica na determinação de um comportamento “normal”, concebido dentro de um modelo linear que tende a continuidade da vida social. Observamos que esta “categorização” é aplicada às inúmeras crianças que apresentam problemas na sua trajetória escolar.

          Apesar de observarmos um cenário promissor, ainda hoje, o lugar ocupado por crianças com problemas de aprendizagem é o de desviante.

 

Refletindo sobre o lugar da Psicopedagogia

          O processo de aprendizagem do indivíduo, objeto de estudo da Psicopedagogia, pode ser entendido como um constante devir; um “vir a ser” infinito que nos leva a um constante exercício de desenvolvimento biopsicossocial e espiritual.

          Aprender é uma atividade complexa que acontece no espaço que se estabelece entre quem ensina e quem aprende. Espaço este, que permite o desejar, o pensar e o fazer, em um movimento incessante de aprender.

          Sobre a criança que traz como sintoma um problema no seu processo de aprendizagem, podemos entendê-la, a partir do olhar da Psicopedagogia, como aquela que, impedida de fazer, pensar e desejar e, portanto, de aprender está ocupando o lugar de desviante, na escola, na família e na sociedade.

          Entendemos que a Psicopedagogia, ao possibilitar espaços de autonomia e autoria de pensamento à criança que apresenta problemas de aprendizagem, propicia o resgate de seu desejo, de seu pensar e de sua ação.

 

O caso G.

          Apresentamos um relato que ilustra a atuação psicopedagógica, dentro da escola, frente ao caso de um aluno disléxico que ocupava o lugar do desviante.

          G. é um menino de 15 anos, freqüentando o segundo ano do Ensino Médio em uma escola particular de São Paulo. Seu rendimento pedagógico nas séries iniciais do ensino fundamental não era bom. Porém, muitas vezes, quando a criança é pequena e ainda freqüenta o Ensino Fundamental, espera-se (escola e família) que ela, um dia, “amadureça” e aprenda; e, assim, muitas vezes, não há uma compreensão adequada frente ao que está acontecendo.

          G. não incomodava na escola; era quieto, seu corpo não produzia movimentos “a mais” e não fazia bagunça, pois nem tinha muitos amigos. Pais e professores foram tolerantes, ou omissos, com seu baixo rendimento e com sua sociabilidade comprometida.

          G. ocupou, na escola, o papel de aluno fraco e na família, o papel de quem não é muito inteligente. Posição esta validade por um resultado psicológico feito há muitos anos que atestava, como natural, seu “pouco interesse pelos ensinamentos acadêmicos” resultado de sua “inteligência mediana”.

          Agora, com G. no Ensino Médio, escola e família começam a se incomodar. O que fazer com G. ao final de sua Educação Básica? Porém, continuam a atestar sua falta de interesse “inato” e sua imaturidade; o que,

provavelmente, resultará no seu impedimento de ingressar em um curso superior.

          Porém, a história de G. começa a mudar quando a escola contrata uma psicopedagoga e esta direciona seu olhar e escuta na direção do aluno, observando sua dinâmica, escutando o que tem a dizer, lendo o que escreve e percebendo sua dificuldade. Ela consegue aproximar-se de G. e de seu pai, implicando este último no processo de aprendizagem do filho.

          Algumas questões apresentadas fizeram com que este pai saísse da posição confortável até então assumida. Questionava-se sobre sua presença e responsabilidade neste processo de abandono e estigmatização sofrido pelo filho durante anos.

          Dentro da instituição, questionou-se por que a escola havia permitido, de forma até inconsequente, que o menino fosse “esquecido” e isolado, estigmatizado por professores e colegas de classe.

          Enfim, questionava-se por que G. não foi acolhido em seu sintoma.

          A partir deste choque inicial, família e escola iniciaram um plano de ação. Juntos, psicopedagoga, pais e aluno, elaboraram um plano de estudos a ser realizado em casa. Na escola, os professores foram orientados sobre possíveis ações que pudessem auxiliar G. no resgate de sua autoestima e desempenho escolar. Aos poucos, foi percebida uma mudança na postura aluno dentro da sala de aula; ele se apresentava mais comprometido e mais interessado (professores confirmavam a mudança de comportamento dentro da sala de aula) e o pai relatava uma melhora de empenho em estudar.

          Também foi levantada a hipótese de G. ser disléxico, pois apresentava várias características que apontavam neste caminho: muita dificuldade na leitura e compreensão de texto, dificuldade na organização de ideias para elaboração de textos escritos e relatos orais, falta de organização nas tarefas diárias, entre outras. O aluno foi, então, encaminhado para uma avaliação psicopedagógica clínica que confirmou a hipótese inicial; foram feitos, então, encaminhamentos para profissionais da área de Fonoaudiologia, de Psicologia e Neurologia para conclusão do diagnóstico. Todos os profissionais concordaram com a tese de G. apresentar um quadro de dislexia.

          O atendimento clínico e a mudança do olhar da família e da escola, bem como a adaptação das atividades acadêmicas, permitiram a G. mudar o lugar que ocupava. Com sua autoestima resgatada, ganhou maior autonomia e, aos poucos, foi se autorizando a ter autoria de pensamento. Não ocupava mais o lugar de desviante.

 

Conclusão

          Poucas vezes, o problema da criança em relação ao seu processo de aprendizagem é olhado a partir de sua complexidade. No caso de G., faltou um olhar e uma escuta para seu sintoma, tanto da escola como da família. Se houvesse sido feita uma intervenção adequada, nos primeiros anos escolares, talvez não tivesse se configurado o quadro apresentado.

          É importante ressaltar que não é o diagnóstico, em si, que determina a exclusão, mas sim, a passividade e o preconceito diante do mesmo.

          O compromisso psicopedagógico é, assim, de contextualizar o problema de aprendizagem não o considerando simplesmente, inerente à criança que o apresenta, mas considerando sua complexidade. Cabe ao psicopedagogo sinalizar potencialidades e competências que, por causa do estigma, não estão sendo consideradas, nos diferentes contextos nos quais a criança transita.

          Dentro da escola, o psicopedagogo é o profissional que, a partir dos conhecimentos de sua área e de uma observação criteriosa, avalia, aponta as responsabilidades e orienta todos os atores que integram o processo ensino-aprendizagem, ou seja, pais, professores e alunos.

          O foco de sua atenção passa a ser o contexto no qual esta criança está inserida e, portanto, a avaliação psicopedagógica é uma ferramenta para tomar decisões que melhorem a resposta educacional do aluno com dislexia, promovendo mudanças no contexto escolar e familiar.

          Faz-se necessário um trabalho com o professor para que este possa identificar o que pode ser resolvido na própria escola, através de ações nem sempre tão complexas, e quando é necessário um encaminhamento para outro profissional, fora dos muros da escola. “Essa distinção permitiria que os professores, apoiados numa triagem criteriosa dos alunos, abandonassem as posturas patologizantes ou indiferentes frente aos problemas de aprendizagem e delimitassem com mais clareza seus espaços de atuação” (SCOZ, 2008, p. 154-155).

          Concluímos que a atuação psicopedagógica dentro da escola pode ser um diferencial para que o processo de inclusão de alunos com dislexia possa acontecer de forma positiva e tranquila.

 

Bibliografia

SCOZ, B. Psicopedagogia e realidade escolar: o problema escolar e de aprendizagem. 15ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

STAINBACK, S.; STAINBACK, W. Inclusão: um guia para educadores. Trad. Magda França Lopes. Porto Alegre: 1999. Reimpressão 2008.

VELHO, Gilberto (org.). Desvio e divergência: uma crítica da patologia social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

 

Flávia Teresa de Lima

Mestre em Psicologia Educacional, especialista em Psicopedagogia e graduada em Pedagogia e em Terapia Ocupacional. Extensão em Gestão da Educação Corporativa pela FIA (em andamento).

Profissional da área de Saúde e Educação há mais de 25 anos, com experiência nos setores privado e particular. Coordenou cursos de Pós Graduação em Psicopedagogia e Neurociência na Educação. Atuou como coordenadora educacional e pedagógica de Ensino Fundamental e Ensino Médio. Ministra palestras e desenvolve projetos de assessoramento educacional e psicopedagógico com foco na inclusão escolar, capacitação de professores e orientação a pais. Idealizadora e administradora do site www.falandoemeducacao.com.br.

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