O USO (OU NÃO) DA LETRA CURSIVA E A DISLEXIA: PONTOS A SEREM CONSIDERADOS

Introdução

 

          Muito se tem discutido sobre a importância (ou não) do uso e cobrança da letra cursiva nas escolas, principalmente nas séries iniciais. Este tema está presente em artigos científicos, palestras, artigos de revistas e permeia, também, as redes virtuais. As opiniões, sejam elas vindas de pessoas leigas ou profissionais altamente capacitados, não parecem contar com uma unanimidade. E isto instiga, mais ainda, minha necessidade de reflexão sobre o tema.

          Todo o nosso “pensar sobre” a dislexia, também foi determinante na escolha deste tema, pois considero que há uma estreita relação entre o debate da letra cursiva e a inclusão escolar da criança que apresenta um quadro de dislexia.

          Claro que não tenho a pretensão de chegar a uma conclusão. Em tempos “pós modernos”, não acredito mais em verdades absolutas. Porém, faz- se necessário discutirmos o tema, visando sempre a melhoria de nossas práticas. E esta é minha proposta: lançar ideias para que sejam refletidas e debatidas por nós: pais, interessados e profissionais das áreas de Saúde e Educação.

 

Considerações sobre o ato de escrever à mão.

 

          Ler e escrever são vertentes de um mesmo processo formativo da pessoa, a alfabetização. Já estou considerando a conscientização que deve estar por trás dos atos de ler e escrever, como também a condição de responder adequadamente às demandas sociais da leitura e da escrita, ou seja, o letramento; o que os eleva de mera decodificação de símbolos para um ato reflexivo e, portanto subjetivo.

          Ou seja, a alfabetização, muito mais do que desenvolver habilidades técnicas, nos fornece um conjunto de habilidades necessárias para o uso e a demonstração do conhecimento de forma mais profunda, abrangente e subjetiva.

          Pensando na escrita, hoje temos formas diversas para sua representação. Dentre as mais conhecidas, não apenas a escrita à mão, seja em letra cursiva, de forma (palito) ou imprensa, mas também a digital estão presentes nas escolas, nas relações de trabalho e nas relações sociais. O uso crescente da tecnologia como instrumento de intermediação nos processos educacionais, profissionais e relacionais é crescente e incontestável. Porém, é difícil afirmarmos que a letra escrita à mão está fadada ao desuso, sendo, em um futuro próximo, totalmente substituída pela letra digitada.

          Vestibulares, concursos públicos e alguns outros processos seletivos para trabalho ainda colocam a letra à mão como principal instrumento de comunicação e expressão do candidato e, muitos deles, exigem a utilização da letra cursiva.

          Mas, para além de seu uso social e de comunicação, o aprendizado e uso da letra cursiva favorece a educação do movimento e o desenvolvimento da coordenação motora fina, suporte de outras habilidades como, por exemplo, o desenhar, o tricotar, o entalhar, e assim por diante. Atua também no desenvolvimento e no exercício da memória. Ou seja, o ato de escrever com letra cursiva é, de fato, um exercício cerebral não contemplado pelo uso de teclados, ou mesmo, da letra de forma (bastão).

          Ainda podemos salientar que o abandono da letra escrita, e da cursiva em especial, pode ter como resultado longínquo a perda do movimento de pinça, característica milenar e exclusivamente humana. Nesse contexto, parece-me que não se trata de abandoná-la em prol do uso do teclado, mas sim, de agregar uma habilidade a outra.

 

O uso da letra cursiva pelo aluno disléxico: pontos de reflexão.

 

          A partir das colocações feitas anteriormente, temos que pensar no caso de crianças disléxicas em idade escolar e no futuro acadêmico e profissional das mesmas. Isto porque, uma das características dos quadros de dislexia é,justamente, a dificuldade do aprendizado e do uso da letra de mão; e mais ainda, da letra cursiva.

          É importante enfatizar que são raríssimos os casos de pessoas disléxicas que não conseguem escrever de forma minimamente adequada. Entendo também que a dificuldade apresentada pela criança possa ser tamanha que iniba seu aprendizado e seu desempenho escolar. Se este for o caso, cabem outras considerações que ficaram para outra oportunidade. Mas, o fato é que na maioria dos casos de crianças disléxicas, a dificuldade na escrita existe, mas é contornada através de trabalhos específicos e da própria conscientização individual.

          Simplesmente retirar a escrita da vida da criança em idade escolar, para poupá-la da dificuldade, não me parece a melhor opção; pelo menos, não sem antes termos uma avaliação muito aprofundada do caso que aponte para esta solução. Avaliação esta que considere as potencialidades da criança e o grau de sua dificuldade; falo de uma avaliação interdisciplinar assertiva, feita por profissionais que saibam avaliar uma criança disléxica.

          Mas, infelizmente, uma das primeiras reivindicações de pais de crianças disléxicas à escola é que ela seja poupada do uso da escrita, em todas as suas formas: cursiva, de forma ou digitada. Querem que as atividades e avaliações sejam realizadas oralmente e que as aulas sejam gravadas, dentre outras solicitações. Muitas vezes, esta atitude dos pais é incentivada pelos profissionais que fazem o diagnóstico e é também, validada por uma Lei que não leva em consideração caso por caso. Temos que considerar que a Lei é generalista e cabe aos profissionais das áreas de Saúde e da Educação terem o discernimento de oferecerem a melhor solução para cada caso, aí sim, individualmente.

          Como já enfatizamos anteriormente, a escrita faz parte de nosso dia a dia. Ela permeia as relações sociais, acadêmicas e de trabalho, de uma forma ou de outra, seja em uma prova, um bilhete, um e-mail, ou mesmo, um whatsapp. Escrever ainda é um instrumento importante de comunicação e de transmissão de conhecimento e de ideias e pode servir de instrumento facilitador do aprendizado, mesmo para crianças disléxicas, pois ela estimula a memória, como já citado.

          Privar a criança disléxica do uso da escrita e também da letra cursiva, simplesmente eximindo-a da utilização das mesmas, pode ser uma forma de prejudicá-la em oportunidades que a vida possa lhe oferecer no futuro. Os pais e a escola podem protegê-la enquanto é criança; mas a vida não protege e, muito menos, o mercado de trabalho. Quando for adulta esta criança poderá ser cobrada desta habilidade da escrita; fácil para alguns e difícil para outros.

          Uma decisão tomada na infância pode impactar de muitas maneiras a vida adulta e, assim, pais ou responsáveis e profissionais devem refletir e debater sobre as melhores práticas a serem adotadas no caso específico de uma criança nessas condições.

 

Conclusão

 

          Minha intenção não é apontar para uma conclusão sobre este assunto, mas sim, lançar algumas ideias para que continuemos nossas reflexões.

          Por enquanto, não me coloco a favor da retirada da letra cursiva das escolas. Entendo que ela tem sua função e pode, muito bem, aliar-se a outras formas de escrita, como vimos. Penso que ela traz habilidades às crianças que serão utilizadas e cobradas, na vida adulta.

          Utilizo o mesmo raciocínio no caso de alunos disléxicos na escola. Com possíveis exceções, penso que é importante demandar destas crianças o exercício da letra cursiva, basicamente pelos mesmos motivos citados anteriormente.

          Cabe o bom senso dos pais e profissionais da área da Saúde e Educação para tomarem a melhor decisão, levando em consideração as especificidades do caso que lhes cabe.

 

 

(Artigo publicado no site Dislexia, e agora? em abril/2015)    

 

Flávia Teresa de Lima

Mestre em Psicologia Educacional, especialista em Psicopedagogia e graduada em Pedagogia e em Terapia Ocupacional. Extensão em Gestão da Educação Corporativa pela FIA (em andamento).
Profissional da área de Saúde e Educação há mais de 25 anos, com experiência nos setores privado e particular. Coordenou cursos de Pós Graduação em Psicopedagogia e Neurociência na Educação. Atuou como coordenadora educacional e pedagógica de Ensino Fundamental e Ensino Médio. Ministra palestras e desenvolve projetos de assessoramento educacional e psicopedagógico com foco na inclusão escolar, capacitação de professores e orientação a pais. Idealizadora e administradora do site www.falandoemeducacao.com.br. 

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