Contribuições da Terapia Ocupacional no atendimento á criança com Dislexia

 

 

 

Flávia Teresa de Lima

Terapeuta Ocupacional -  Pedagoga

Psicopedagoga

Mestre em Psicologia Educacional

Introdução

 

Quando nos referimos ao atendimento à pessoa com dislexia, geralmente contemplamos determinadas áreas do conhecimento como a Fonoaudiologia, a Psicopedagogia, a Psicologia e a Pedagogia, além da área médica, na figura do neurologista. Poucas vezes a Terapia Ocupacional é citada enquanto área que pode atuar com crianças, adolescentes e adultos disléxicos. Assim, meu objetivo com este artigo é compartilhar com o leitor alguns conhecimentos sobre a Terapia Ocupacional e apresentar a atuação do profissional terapeuta ocupacional junto à criança disléxica e sua contribuição à equipe interdisciplinar, nestes casos.

 

Considerações sobre a Terapia Ocupacional.

 

A Terapia Ocupacional é uma área do conhecimento pouco conhecida e, por isso, faz-se necessário apresentar alguns aspectos relevantes desta formação acadêmica, com a qual iniciei minha carreira profissional e que influencia, e completa, profundamente minha caminhada pela Psicopedagogia.

 

A Terapia Ocupacional (TO) tem como objetivo possibilitar um desenvolvimento motor, perceptivo, cognitivo e emocional do indivíduo (criança, adulto e idoso), promovendo sua saúde física, mental, emocional e social, tornando-o o mais independente possível, bem como prevenindo possíveis patologias.

 

O terapeuta ocupacional atua através de atividades por ele analisadas e aplicadas, segundo a necessidade de cada paciente ou grupo de pacientes. Estas atividades podem ser expressivas, artesanais, corporais, lúdicas e laborais.

 

A área de atuação da TO é variada e abrangente, podendo desenvolver trabalhos valiosos com crianças com atraso de desenvolvimento global (neuropsicomotor); crianças e adolescentes com distúrbios de aprendizagem; crianças com síndromes neurológicas e/ou genéticas diversas; adultos e crianças com distúrbios emocionais e de conduta (pacientes psiquiátricos); adultos com sequelas físicas, percepto-cognitivas e emocionais provenientes acidente vascular cerebral (AVC); idosos com ou sem quadro patológico associado, atuando também na prevenção de distúrbios próprios da idade, tais como: depressão, demência, invalidade física; indivíduos com sequelas físicas, por acidentes de trabalhos ou outros (elaboração, adaptação e treino do uso de próteses, órteses, etc).

 

De acordo com o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (CREFITO), a Terapia Ocupacional é:

 

Campo do conhecimento e de intervenção em saúde, na educação e na esfera social que reúne tecnologias orientadas para e emancipação e autonomia de pessoas que apresentam, por razões ligadas a problemáticas específicas (físicas, sensoriais, psicológicas, mentais ou sociais), temporária ou definitivamente, dificuldade na inserção à participação na vida social. As intervenções dimencionam-se pelo uso de atividades, elemento centralizador e orientador na construção complexa e contextualizada do processo terapêutico. A atividade é o instrumento terapêutico do Terapeuta Ocupacional, que seleciona, analisa e adapta a atividade a cada indivíduo e situação, dividido-a em fases, observando e determinando os aspectos motores, psíquicos, sensório- perceptivos, socioculturais, cognitivos e funcionais necessários à realização da mesma.

 

Ainda segundo o CREFITO,   “o terapeuta ocupacional compreende o homem como ser práxico interferindo no cotidiano do usuário comprometido em suas funções práxicas, visando uma melhor qualidade de vida diária, prática, de trabalho e de lazer”.

 

Como podemos ver, o profissional terapeuta ocupacional tem uma atuação relevante com crianças, adolescentes, adultos e idosos, nas áreas do desenvolvimento motor e psicomotor, da saúde mental, da reabilitação física e laboral, do desenvolvimento neurológico e assim por diante.

 

A atuação do terapeuta ocupacional com crianças disléxicas.

 

De forma simplificada, a dislexia pode ser considerada um distúrbio específico da aprendizagem que afeta as habilidades necessárias para a aquisição e desenvolvimento dos processos de leitura e escrita, decorrente de uma disfunção neurológica. Assim, é possível entender que o caminho percorrido pela criança disléxica dentro da escola tende a ser árduo devido, não só aos vários fatores e situações decorrentes do quadro apresentado, mas também, do pouco conhecimento por parte da família e dos profissionais das áreas da Educação e Saúde.

 

Como já discutimos em outros trabalhos, muitos avanços no atendimento à criança disléxica têm sido observados e os resultados mostram- se positivos. Porém, o caminho a ser percorrido, para chegarmos a um melhor e mais completo entendimento sobre a dislexia e a um atendimento digno aos portadores deste distúrbio, apresenta-se inda longo.

 

Devido à complexidade que permeia os quadros de dislexia, o atendimento interdisciplinar desponta como importante diferencial e sua relevância é indiscutível. Mesmo assim, a atuação de algumas áreas do conhecimento ainda não é contemplada no atendimento à criança disléxica; muitas vezes, por desconhecimento por parte dos profissionais que atendem estes casos. Penso ser este o caso da Terapia Ocupacional.

 

Acredito que a TO possa contribuir de forma consistente nos casos de dislexia, devido à abrangência da atuação do terapeuta ocupacional e as características de sua formação; e também, levando-se em consideração o objetivo principal desta  área  que  é  levar  o  indivíduo  a  um  “bem-estar”  físico,   psíquico, emocional e social.

 

É comum, nos quadros de dislexia, o aparecimento de comorbidades, dentre elas algumas dificuldades psicomotoras referentes à orientação espacial e temporal, à coordenação motora e lateralidade; além da baixa autoestima decorrente às inúmeras situações negativas vivenciadas pelo indivíduo disléxico, não só na escola, mas também, na família, no convívio social e, mais adiante, na sua vida profissional.

 

Neste contexto, a TO, ao utilizar a atividade lúdica como principal instrumento de atuação, visando o desenvolvimento global do indivíduo, inclusive no ambiente escolar, apresenta-se como uma possibilidade bastante interessante de atuação nos quadros de dislexia apresentados por crianças.

 

É essencial que o terapeuta ocupacional tenha um conhecimento aprofundado sobre esse distúrbio específico da aprendizagem e seus possíveis impactos na vida da criança que o comporta. A partir daí, a elaboração de um plano terapêutico focado não só nas dificuldades apresentadas, mas, sobretudo nas potencialidades e habilidades da criança é o diferencial no tratamento a ser proposto e desenvolvido.

 

O trabalho da TO com crianças disléxicas pode abranger atividades que contemplem o desenvolvimento motor global; a coordenação motora ampla e fina; a orientação temporal e espacial; a lateralidade; e o bom desenvolvimento emocional. Todos estes aspectos são muito importantes para que o desempenho escolar transcorra de forma produtiva e saudável.

 

Além destes aspectos citados, devemos lembrar que, através da atividade, entendida enquanto práxis, ou seja, ação e reflexão, a criança participa e vivencia um espaço potencial de criatividade que abre caminhos para que ela se reconheça em sua ação e em suas habilidades. Este pode ser o caminho para que ela consiga superar as vicissitudes que se apresentam em sua trajetória de vida.

 

Conclusão

 

A Terapia Ocupacional ocupa-se da atividade humana enquanto práxis, ação/reflexão, direcionada ao bem estar global do indivíduo e à sua autonomia.

A atividade por si só não é terapêutica; ela se configura como um instrumento, uma ponte entre o terapeuta ocupacional e a criança, através da qual se estrutura um vínculo de confiança e um espaço potencial de criatividade.

 

Nesse contexto, entendo que o trabalho do terapeuta ocupacional com a criança disléxica baseia-se, não só no desenvolvimento das habilidades necessárias ao processo de aprendizagem, como também na oferta de situações que potencializem o reconhecimento de si enquanto autor de sua história de vida; o que pode contribuir positivamente na autoestima dessa criança.

 

Por estes motivos e tantos outros, considero a Terapia Ocupacional uma área que pode contribuir de forma substancial no atendimento às crianças disléxicas, fazendo parte de uma equipe interdisciplinar especializada.

 

 

Flávia Teresa de Lima

Mestre em Psicologia Educacional, especialista em Psicopedagogia e graduada em Pedagogia e em Terapia Ocupacional. Extensão em Gestão da Educação Corporativa pela FIA (em andamento).
Profissional da área de Saúde e Educação há mais de 25 anos, com experiência nos setores privado e particular. Coordenou cursos de Pós Graduação em Psicopedagogia e Neurociência na Educação. Atuou como coordenadora educacional e pedagógica de Ensino Fundamental e Ensino Médio. Ministra palestras e desenvolve projetos de assessoramento educacional e psicopedagógico com foco na inclusão escolar, capacitação de professores e orientação a pais. Idealizadora e administradora do site www.falandoemeducacao.com.br. 

 

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