A CONCEPÇÃO DE UM “ESPÍRITO INCLUSIVO”: 10 PASSOS PARA A INCLUSÃO ESCOLAR

June 18, 2015


Flávia Teresa de Lima
Terapeuta Ocupacional – Pedagoga
Psicopedagoga
Mestre em Psicologia Educacional


Introdução

 

     A instituição escolar, tal como a conhecemos hoje, é estruturada para um “aluno ideal”, isto é, o aluno que não apresenta dificuldades, que tem autonomia e, por isso realiza as tarefas, estuda porque gosta e que tem metas de entrar em uma universidade de excelência, quando acabar de cursar o Ensino Básico. Dos pais destes alunos, espera-se que sejam parceiros, participantes efetivos da vida escolar de seus filhos e colaboradores na complexa dinâmica família-escola. Também se espera que o professor seja “ideal”, ou seja, compreensivo com a instituição e com os seus alunos, cumpridor de seus deveres burocráticos, ótimo transmissor de conhecimento e um mediador exemplar.
     Porém, em nossa prática de educadores trabalhando no (e com o) dia a dia escolar, devemos considerar outra realidade. Na escola existem crianças que não aprendem, que têm dificuldades, que são indisciplinadas; figuram pais que não contribuem positivamente na parceria com a escola e muito menos na vida escolar de seus próprios filhos; e também, trabalham professores despreparados, desmotivados para exercerem a profissão que escolheram, e assim por diante.
     Esta realidade que se impõe escapa do normativo e colide com o engessamento institucional, causando um impacto e um desequilíbrio que paralisam pensamentos e ações nos espaços educacionais. Neste cenário, é quase impossível pensarmos em uma escola que seja inclusiva.
     Quero apresentar neste artigo alguns passos necessários para uma escola tornar-se inclusiva, ou seja, ser aquela que oferece a todos os seus alunos oportunidades educacionais adequadas que garantam a formação de um cidadão.


Por que uma escola inclusiva?


     A educação, ou a falta dela, figura como um dos sete fatores de maior importância na dimensão da exclusão social, funcionando como vetor para as demais dimensões das desigualdades. Esta é uma constatação de relevância apresentada no Atlas da Exclusão Social no Brasil, de 2004 e, infelizmente, novamente validada na edição de 20141.
     O fracasso escolar, resultante do engessamento da instituição escolar, pode levar à evasão escolar e esta constatação nos leva a dimensionar o problema da exclusão social da população brasileira resultante deste fato.
     Nosso desafio é considerar uma estrutura escolar que ofereça a todos os alunos, “normais” ou “desviantes”2, uma educação que contemple as diferenças e diversidades e ofereça oportunidades de aprendizagem efetiva dentro das possibilidades individuais, estimulando e desenvolvendo potenciais.
     Partindo desta visão, devemos entender que o ensino inclusivo é, antes de tudo, uma prática de cidadania que resulta na inclusão de todos os alunos, independente de suas condições socioeconômicas, de crenças, das habilidades, das dificuldades ou distúrbios que possam vir associados.
     Susan Stainback e Willian Stainback, autores e organizadores do livro “Inclusão: um dia para educadores”3 apontam três componentes básicos interdependentes para um ensino inclusivo e que me parecem bastante apropriados. São eles: rede de apoio; consulta cooperativa e trabalho em equipe; e aprendizagem cooperativa.
     A equipe de apoio, ou rede de apoio, nada mais é do que um grupo de pessoas, de diferentes áreas do conhecimento, dispostas não só a debater e trocar ideias, como também resolver problemas, desenvolver métodos, criar técnicas e atividades que possam ajudar os professores ou os alunos a conseguirem o apoio de que necessitam para serem bem-sucedidos em seus papeis.


1 http://www.teoriaedebate.org.br/estantes/livros/atlas-da-exclusao-social-no-brasil-dez-anos-depois. Acesso em junho/2015.
2 Velho (2003) analisa o problema das “pessoas desviantes” e explica que, no senso comum, o termo “desviante” refere-se ao indivíduo que apresenta diagnóstico decorrente de uma patologia.
3 STAINBACK, S.; STAINBACK, W. Inclusão: um guia para educadores. Trad. Magda França Lopes. Porto Alegre: Artmed, 2008.


     Não necessariamente os membros desta equipe de apoio trabalham na escola. Podem fazer parte deste grupo psicopedagogos, psicólogos, psiquiatras, neurologistas, fonoaudiólogos, dentre outros profissionais, que atuem na rede de saúde pública ou em consultórios particulares, mas que mantenham esta parceria com a escola.
     A consulta cooperativa e o trabalho em equipe, segundo componente apontado pelos autores, é resultante direto do primeiro. Ou seja, a partir da formação de uma rede de apoio, garantir a comunicação entre seus membros, através de conexões formais ou informais, que coloquem em prática programas facilitadores dos processos de inclusão.
     A aprendizagem cooperativa pode ser entendida como um componente a ser desenvolvido dentro da escola, mais especificamente na sala de aula, e que resulte na criação de um ambiente propício à aprendizagem. Para isso, é fundamental garantir diferentes formas de trabalhar um conteúdo, contemplando as diferentes formas de aprendizagem a partir dos interesses e habilidades dos alunos.
     Vemos que o sucesso de um programa de inclusão dentro da escola depende de uma disponibilidade institucional, além de uma disponibilidade interna e pessoal de todos os seus colaboradores.


O “espírito de inclusão” em 10 passos.


     Chamo de “espírito de inclusão” a essa disponibilidade institucional e pessoal que inebria o contexto escolar e propicia processos de inclusão.
     Baseada em Schaffner e Buswell, também colaboradores do livro citado anteriormente, aponto a seguir 10 passos a serem construídos e seguidos dentro da escola e que podem levar, na prática, a este “espírito de inclusão”.
     O primeiro passo é desenvolver uma filosofia institucional que faça sentido para todos os colaboradores da escola; a partir disto, organizar um plano estratégico que contemple a diversidade.
     Para dar suporte à filosofia institucional e ao plano estratégico, é necessário proporcionar uma liderança forte para conduzir as ações, gerencias pessoas, processos e conflitos. Este é o segundo passo.
     Segue-se um terceiro passo que é promover culturas de aceitação, apreciação e respeito à diversidade, considerando esta a mola propulsora para uma renovação escolar ampla e irrestrita.
     O quarto passo envolve o desenvolvimento das redes/equipes de apoio voltadas ao assessoramento de alunos e professores. Como apontamos antes, estas equipes não precisam estar necessariamente dentro da escola, apenas. É importante podermos contar com instrumentos de uma rede de apoio pública que ofereça serviços diversos nas áreas de Saúde e Educação como médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos, pedagogos, etc.
     Neste caso, cabe à liderança solicitar às autoridades públicas os recursos necessários e validar parcerias que agreguem valor à cultura de inclusão que está sendo construída.
     Deliberar responsabilidades compõe o quinto passo rumo a uma prática escolar inclusiva e se alinha ao passo anterior, de uma liderança forte. As responsabilidades devem ser atribuídas a todos os funcionários da escola, de acordo com suas atividades. Porém, apenas atribuir a responsabilidade não é suficiente; é necessário criar instrumentos de monitoramento e acompanhamento que garantam a eficiência desta dinâmica.
     O sexto passo é desenvolver e garantir um assessoramento técnico organizado e contínuo focado na figura e no trabalho do docente. É importante que os professores tenham programas contínuos de formação e acesso às informações relevantes sobre temas que possam interferir diretamente no dia a dia da escola inclusiva.
     Decorrente dos anteriores, o sétimo passo implica em adotar abordagens de ensino efetivas que possam atingir a comunidade de alunos em suas mais diversas necessidades. Para isso, devemos pesquisar e programar diferentes metodologias e estratégias de ensino que promovam, de forma assertiva, o aprendizado.
     O oitavo passo aponta para a necessidade de manter a flexibilidade de pensar e agir, pois, sem isto, um projeto de uma escola inclusiva jamais será uma realidade. A flexibilidade resulta em ações criativas que nos auxiliam a lidar com o desconhecido e com o inusitado; é o pensar e agir “fora da caixinha”.
     Muitas vezes, ao realizarmos um trabalho de inclusão escolar, não nos damos conta da legitimidade do trabalho desenvolvido e de todo o empenho e energia desprendidos e que levam ao sucesso. É muito comum o professor não se dar conta do trabalho que ele próprio realiza dentro da sala de aula e que resulta na inclusão efetiva de todos os seus alunos. Por isso, o nono passo é conscientizar-se do processo de mudança que está acontecendo e do qual estamos participando ativamente.
     Para finalizar, o décimo passo é comemorar os sucessos e aprender com os desafios. A partir disto, novos passos podem ser pensados e executados, de acordo com a realidade que se impõe.


Conclusão.


     Muitos são os casos de crianças que, por problemas diversos (sociais, econômicos, orgânicos, emocionais, psicomotores, etc.), fracassam na escola e engrossam as estatísticas de evasão escolar, fato este que merece um olhar mais atento, pois os índices, em nosso país, ainda são elevados quando comparados a outros países.
     Penso que a escola pode e deve ser uma oportunidade de reversão deste quadro, sendo responsável por uma parte significativa no processo de inserção social do indivíduo. Assim, como cidadãos, devemos refletir e debater incansavelmente, buscando caminhos para podermos atuar de forma assertiva junto à escola que se propõe a realizar um trabalho voltado à inclusão e, consequentemente, que colabore para a diminuição dos índices de exclusão social.
     Os benefícios do ensino inclusivo não atingem apenas os alunos com necessidades especiais. Pelo contrário, todos os envolvidos no processo educacional, sejam alunos, professores ou demais colaboradores, de dentro e de fora da escola, tendem a se beneficiar de um trabalho voltado para a inclusão, pois esta é para todos.
     O desafio de uma escola inclusiva em sua essência é complexo. Trata-se de criar uma cultura de inclusão que faça emergir um “espírito de inclusão” em diretores, coordenadores, auxiliares, professores, alunos, funcionários administrativos e funcionários de serviços em geral (limpeza, cantina, portaria, etc.).
     Este “espírito de inclusão” pode ser construído através de 10 passos, aqui apresentados, que alimentam a disponibilidade interna necessária para a inclusão; disponibilidade esta que é institucional e pessoal de todos os colaboradores do contexto escolar.

 


Flávia Teresa de Lima
Mestre em Psicologia Educacional, especialista em Psicopedagogia e graduada em Pedagogia e em Terapia Ocupacional. Extensão em Gestão da Educação Corporativa pela FIA (em andamento).
Profissional da área de Saúde e Educação há mais de 25 anos, com experiência nos setores privado e particular. Coordenou cursos de Pós Graduação em Psicopedagogia e Neurociência na Educação. Atuou como coordenadora educacional e pedagógica de Ensino Fundamental e Ensino Médio. Ministra palestras e desenvolve projetos de assessoramento educacional e psicopedagógico com foco na inclusão escolar, capacitação de professores e orientação a pais. Idealizadora e administradora do site www.falandoemeducacao.com.br.

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