Por que algumas crianças não aprendem? Fracasso, Dificuldade ou Distúrbio?

July 24, 2015


Flávia Teresa de Lima
Terapeuta Ocupacional – Pedagoga
Psicopedagoga
Mestre em Psicologia Educacional


Apresentação
Neste artigo abordarei, de forma introdutória, um assunto que preocupa família, escola e profissionais das áreas da Saúde e da Educação; e que tem sido temática constante nas reuniões escolares sem, contudo, trazer o esclarecimento que se faz necessário para pais e professores.
O tema envolve perguntas desafiadoras: por que algumas crianças não aprendem ou têm uma maior dificuldade em aprender? Como podemos nomear estes casos?
Estas são perguntas que transitam por salas de professores nos intervalos de aulas e, por isso, direciono minha explanação, principalmente a estes profissionais, acreditando que eles são a verdadeira oportunidade destas crianças. Olhares e ouvidos atentos e preparados fazem a maior diferença para que haja boas condutas nestes casos.
Assim, apresentarei pontos importantes sobre a terminologia usada para descrever situações que poderão elucidar algumas dúvidas sobre este tema e, quem sabe, motivar atitudes que possibilitem uma melhor trajetória escolar para estas crianças.


Introdução
Desde nosso nascimento aprendemos muitas coisas; algumas delas nos parecem inatas, mas, na verdade, não são e exigem esforço e treino para que possam acontecer. Podemos citar, como exemplos de ações a serem aprendidas: o mamar, o andar, o falar e o pensar.
Nascemos com potencial para realizarmos estas ações, mas elas dependem de um processo de construção de conhecimento bastante complexo. Mesmo assim, espera-se que aconteçam de forma natural e espontânea e, se isto não ocorre algo está errado e devemos buscar a causa.
Do mesmo modo, a aprendizagem escolar deve acontecer de forma espontânea e prazerosa, em geral, motivada por uma curiosidade. Detectado um entrave no processo de aprendizagem, deve-se buscar a causa, antes de trabalhar com o sintoma em si. De início, estaremos diante de diferentes situações que podem estar dificultando essa aprendizagem e, então, faz-se necessário uma avaliação do quadro feita, em geral, por profissionais especializados.


Fracasso ou problema; dificuldade ou distúrbio?
Os termos “fracasso escolar” e “problema de aprendizagem” implicam cenários que afetam alunos dentro escola e que podem ser causados por fatores diferentes, embora resultem em sintomas aparentemente similares.
Em ambos os casos, temos alunos (crianças e/ou adolescentes) que apresentam uma trajetória de aprendizagem comprometida. Em geral, apresentam-se desmotivados, indisciplinados, desatentos e, muitas vezes, irresponsáveis com suas tarefas escolares. Estes são os sintomas através dos quais estes alunos conseguem externar seu sofrimento; ou seja, apresentam-se como um “pedido de socorro” para que se direcione a eles uma escuta e um olhar atentos.
Há uma grande confusão no entendimento e na aplicabilidade dos termos que nomeiam uma situação de aprendizagem comprometida. Encontramos palavras como “problema”, “distúrbio”, “dificuldade”, “fracasso”, dentre outros.
Alguns autores definem os comprometimentos no processo de aprendizagem de acordo com as causas que os produzem, sem, contudo, chegarem a uma conformidade sobre a terminologia a ser usada. Porém, o entendimento desta diferença é importante para que se dê, a cada caso, uma atenção especial e encaminhamentos que sejam pertinentes. Além disso, pelo estudo desta terminologia, podemos entender um pouco mais sobre as causas da “não aprendizagem".

Ciasca (2003) enquadra o que é “físico” dentro dos transtornos/distúrbios de aprendizagem; o que não é físico, isto é, quando não há uma lesão ou não é decorrente de uma disfunção, a autora considera como sendo uma dificuldade e aprendizagem. Nas dificuldades, podemos entender os problemas pedagógicos e/ou emocionais que afetam o processo de aprendizagem do indivíduo.
Rotta (in ROTTA, OHWEILER e RIESGO, 2006) afirma que nem toda dificuldade para a aprendizagem têm, necessariamente, uma causa neurológica. Ou seja, um cérebro com sua total possibilidade de funcionamento, sem lesões, com estrutura normal, não é garantia de um sucesso no processo de aprendizagem do indivíduo. Para o autor, o termo “dificuldade de aprendizagem” abrange um grupo heterogêneo de problemas que afetam a possibilidade do processo de aprendizagem acontecer de forma saudável e natural, independente de suas condições neurológicas para isso. Já os “transtornos” referem-se àquelas dificuldades primárias ou específicas oriundas de alterações do Sistema Nervoso Central.
Farrell (2008) considera como dificuldades específicas da aprendizagem os casos nos quais há um comprometimento orgânico, muitas vezes de origem neurológica e/ou química, que justifiquem o sintoma apresentado. São os casos de dislexia, discalculia, dispraxia, dentre outros. Outros autores (KIRBY e DREW, 2003 apud FARRELL, 2008) consideram a Síndrome de Asperger (categoria do espectro autista) e o TDHA (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), também como dificuldades específicas de aprendizagem, embora com comprometimentos significativos nas áreas do comportamento, emocional e social.
Zorzi (2003, p.106) confere ao distúrbio de aprendizagem a característica de ser “uma alteração em um ou mais processos psicológicos envolvidos na compreensão ou uso da linguagem, falada ou escrita, que pode manifestar-se como uma habilidade imperfeita para ouvir, pensar, falar, ler, escrever ou realizar cálculos matemáticos”.
Fernández (1991) considera o fracasso escolar de acordo com os fatores que o causam. Assim, quando estamos diante de causas externas ao indivíduo e sua família, a autora denomina de problema de aprendizagem reativo, no qual não há a constituição de uma modalidade de aprendizagem1 patologizada na criança, mas sim o estabelecimento de uma relação conflituosa entre ela e a escola. Nestes casos, a intervenção psicopedagógica dar-se-á na instituição escolar, no sentido de mediar e, se possível, ressignificar o vínculo estabelecido entre a criança e a instituição. Na maioria dos casos, a criança não requer atendimento psicopedagógico individual ou grupal.
 Se as causas do fracasso são fatores internos ao indivíduo e à sua dinâmica familiar, estamos diante de um problema de aprendizagem-sintoma ou inibição. Ou seja, a criança apresenta uma modalidade de aprendizagem patológica, o que afeta “a dinâmica de articulação entre os níveis de inteligência, o desejo, o organismo e o corpo, redundando em um aprisionamento da inteligência e da corporeidade” (FERNÁNDEZ, 1991, p.82). Nestes casos, a intervenção psicopedagógica dá-se através do atendimento clínico individual, atendimento em grupo, atendimento aos familiares.
Como observamos, uma unanimidade no uso desta terminologia está descartada devido à complexidade que envolve a aprendizagem humana. Podemos enfatizar que aspectos sociais, emocionais, orgânicos, pedagógicos e de ordem social são fatores facilitadores ou inibidores deste processo e os autores baseiam-se neles para adotarem suas terminologias próprias.


Resumindo
Baseada nos autores citados e por uma necessidade didática, adoto a seguinte classificação para os quadros nos quais podemos observar um fracasso na trajetória escolar de uma criança:

Terminologia Características
Fracasso escolar
Suas causas são fatores externos à criança e sua família; o vínculo da criança com a instituição escolar encontra-se comprometido; o vínculo da criança com a aprendizagem permanece saudável.
Ex: crianças que têm muita dificuldade de transporte para chegar à escola (muitas vezes, andam horas à pé, gastam mais algumas horas em transporte público para chegarem à escola). Dificuldades de aprendizagem Suas causas são fatores internos à criança e à sua dinâmica familiar; o modo como a criança se relaciona com o aprendizado encontra-se cristalizado, enrijecido. Ex 1: a criança é adotada, mas o fato é um segredo familiar; isto pode acarretar um sintoma na aprendizagem da criança. Ex 2: a criança é superprotegida pelos pais e tratada como bebê; a aprendizagem da leitura e da escrita dá-se quando a criança tem o desejo de aprender que, neste caso, significa crescer.
Distúrbios/Transtornos de aprendizagem ou Dificuldades específicas da aprendizagem
São casos nos quais temos um diagnóstico específico de transtornos da aprendizagem; englobam os casos de dislexia, discalculia, disortografia, disgrafia, TDAH, dentre outros. Há um comprometimento orgânico (de origem neurológica e/ou química) que justifique o quadro.

Conclusão
Os autores evidenciam a composição dos inúmeros fatores que interferem no processo de aprendizagem humana e que devem ser considerados de forma ampla e profunda. O diagnóstico, nestes casos, deve ser feito levando-se em consideração os fatores sociais, afetivos, emocionais, cognitivos e orgânicos.
Assim, é importante que a avaliação de um comprometimento no processo de aprendizagem seja interdisciplinar, com a participação de profissionais de várias áreas do conhecimento como pedagogos, psicopedagogos, psicólogos, neurologistas, fonoaudiólogos, psiquiatras, dentre outros.
A terminologia usada para distinguir os casos apresenta-se mais como uma divisão didática; ainda que necessária e importante para que se dê o encaminhamento correto.
Neste cenário, a intervenção psicopedagógica torna-se igualmente complexa e abrangente, ou seja, não se limite a um espaço físico (consultório ou instituição), mas estende-se ao atendimento com e na instituição, com a criança, com os pais e com os professores.
 

1 Modalidade de aprendizagem, no campo da Psicopedagogia, refere-se à relação entre quem ensina, quem aprende e o objeto de conhecimento. A modalidade de aprendizagem deve ser flexível, por ser um molde, e sofrer mudanças ao longo de toda a vida da pessoa. Um problema de aprendizagem se configura quando essa modalidade de aprendizagem se enrijece, perde a flexibilidade e congela. Nestes casos, não há adaptação, não há lugar para novas formas de atuação, não há criatividade, não há autoria.

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