PSICOPEDAGOGIA E PSICOMOTRICIDADE: ENTRELAÇAMENTO NECESSÁRIO DE CONHECIMENTOS

March 2, 2016

Flávia Teresa de Lima
Terapeuta Ocupacional – Pedagoga
Psicopedagoga
Mestre em Psicologia Educacional

 

Introdução
Este artigo apresenta o resultado de uma reflexão sobre o papel o psicopedagogo atuando de forma interdisciplinar no atendimento de crianças com transtornos de aprendizagem.
Não raro, recebo no consultório crianças que trazem como queixa uma dificuldade na aprendizagem. Após uma avaliação, constata-se que essas crianças apresentam problemáticas na estruturação e reconhecimento de seu corpo, no uso desse corpo enquanto instrumento de interação com o outro, nos movimentos, nos gestos, nas praxias.
Defendo a ideia de que, através do conhecimento dos pressupostos da Psicomotricidade e do intercâmbio com profissionais desta área, o psicopedagogo pode, com maior habilidade, fazer um diagnóstico diferencial mais preciso e, com os recursos oferecidos por esta disciplina, elaborar planos de atuação adequados a esta demanda específica e frequente.
A importância do desenvolvimento psicomotor na autoria de pensamento e na aprendizagem.
Equilíbrio, tonicidade, orientação espacial e temporal, esquema corporal, imagem corporal, lateralidade e coordenação motora são estruturas psicomotoras necessárias para que nosso organismo explore o ambiente, para que possamos nos perceber nesse mesmo ambiente e perceber o outro e, com isso, possamos nos desenvolver.
É comum na prática psicopedagógica, a necessidade de trabalharmos esses aspectos que podem se encontrar deficitários em sua estruturação, nas crianças que nos são encaminhadas porque “não aprendem”, “não param”, “são descoordenadas”, são “hiperativas”, “as que não aprendem nada”, “as
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desinteressadas” ou as que “vivem no mundo da lua”. Esta é a “queixa sintoma” com a qual nos deparamos no nosso dia a dia enquanto profissionais.
Estas crianças, como muitas vezes podemos observar, não têm conhecimento de seu corpo, ou do uso que podem e devem fazer do mesmo enquanto instrumento de aprendizagem. Trazem uma dificuldade psicomotora como sintoma associado à não aprendizagem.
Neste cenário, devemos pensar nosso corpo como uma ferramenta a ser utilizada para conhecer o Outro e desse mesmo Outro recebermos conhecimento.
Falamos de um sujeito que não é um corpo, mas sim, o tem e pode utilizá-lo como instrumento de conhecimento, de saber, de articulação de pensamento. O corpo, organismo recortado pelo desejo, é o mediador do espaço entre subjetividade (desejo) e objetividade (concretização), no qual se forma a autoria de pensamento.
Não há espaço dentro da Psicopedagogia para um homem alienado, verdadeiramente dividido em ação ou desejo, sem um entre que permeie estas duas instâncias. Neste entre o desejar e o fazer, deparamo-nos com um conceito importante para a Psicopedagogia: a autoria do pensamento. O pensamento objetiva-se com subjetividade se houver autoria por parte de quem realiza a ação.
O desenvolvimento psicomotor envolve o desenvolvimento funcional, tão necessário para que o indivíduo aprenda. Assim, tonicidade, equilíbrio, orientação espacial, orientação temporal, lateralidade, coordenação motora global e fina servem de base para que o indivíduo possa se conectar e perceber o mundo que o cerca, oferecendo o suporte necessário à aprendizagem.
A autoria de pensamento atrela-se às estruturas psicomotoras para que o processo de aprendizagem aconteça de forma saudável.
O alinhamento entre a Psicopedagogia e a Psicomotricidade
A Psicomotricidade nos enriquece com a ideia do fazer e do conhecer com o corpo. Mostrar ou não mostrar a ação. E a Psicopedagogia nos direciona para o mostrar ou não mostrar o conhecimento.
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Podemos destacar algumas terapias (psico)motoras, que buscam uma melhora da criança na escola e mesmo em casa, através unicamente de “receitas” que buscam moldar seu comportamento através de exercícios, muitas vezes condicionadores. Nestes casos, traça-se um perfil psicomotor e se espera que a criança esteja dentro de uma média, do “normal”. Se isso não acontece, inicia-se uma maratona de terapias “psi”, bem como há uma orientação à escola para que haja uma adequação dessa criança ao meio escolar; sendo que, esta “adequação” desconsidera o sujeito que está por trás da ação realizada (ou não).
Falamos de um sujeito do desejo e, portanto, não consideramos apenas um organismo com necessidades, mas também um corpo que fala, que deseja, sujeitado à palavra. Não se trata, portanto, da aplicação de exercícios que façam com que suas habilidades se desenvolvam, mas de marcas deixadas que estruturam esse sujeito, dando-lhe uma base de sustentação para sua vida.
A partir dessas ideias, a Psicopedagogia utiliza-se dos conhecimentos da área da Psicomotricidade não para o treino de um organismo, mas sim, como possibilidade de se ter um corpo enquanto instrumento de conhecimento, de articulação do pensamento. Temos nosso corpo para conhecer o Outro e para receber o conhecimento desse Outro. Esta é a base para o estabelecimento de uma relação ensinante-aprendente saudável.
A Psicomotricidade dentro do atendimento psicopedagógico.
Realizada uma avaliação diagnóstica psicopedagógica, na qual se constata a necessidade de realizarmos um trabalho psicomotor associado, temos as informações para determinar as atividades que deverão fazer parte do plano de intervenção estabelecido.
Na atuação do psicopedagogo escolar, o trabalho voltado à estruturação psicomotora pode ser desenvolvido junto à disciplina de Educação Física. Aliás, este alinhamento entre a Psicopedagogia e a
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Educação Física é muito pouco valorizado, mas que pode ter resultados riquíssimos, tanto em termos preventivos como remediativos.
No consultório, o psicopedagogo pode utilizar diferentes instrumentos para trabalhar os aspectos psicomotores do cliente. Entre eles, podemos citar:
1. Jogos que exijam coordenação motora fina, orientação espacial, lateralidade; além da atenção, concentração e limites (regras): jogo de varetas; xadrez; bola de gude; pinos coloridos, dentre outros.
2. Atividades manuais que trabalhem a coordenação motora fina, a orientação espacial, a lateralidade: atividades de alinhavo; massa de modelar; mosaicos; jogos de encaixe; pintura a dedo/pincel; dentre outras atividades.
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3. Atividades que exijam coordenação motora global, além orientação espacial; orientação temporal; lateralidade: jogos com bola; bambolês; boliche; bexigas; etc.
Conclusão
A importância do desenvolvimento de um trabalho psicomotor atrelado ao atendimento psicopedagógico é inegável, considerando-se a necessidade da integração psicomotora e da autoria de pensamento no processo de aprendizagem do indivíduo.
Assim, o trabalho psicopedagógico à luz da Psicomotricidade poderá basear-se em:
 Oferecer condições motoras e percepto-cognitivas que possibilitem as condições de realização de uma atividade;
 Possibilitar a realização de uma atividade, entendida como a possibilidade de espaços de autoria do pensamento e ressignificação de sintoma.
Enfatizo que nem todo psicopedagogo é um psicomotricista e, assim, em alguns casos torna-se necessário o encaminhamento para o profissional específico da área da Psicomotricidade. Compreender esse limite parece-me fundamental para o trabalho interdisciplinar.
Aponto assim, a importância de um diagnóstico interdisciplinar, nestes casos de Problemas de Aprendizagem, possibilitando que intervenções
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adequadas sejam efetuadas, com abrangência das múltiplas possibilidades de intervenções de acordo com o quadro em questão.
Fica evidente a necessidade do psicopedagogo integrar-se com as demais áreas de conhecimento, atitude esta esperada de profissionais de todas as áreas do conhecimento.
Em contrapartida, a Psicopedagogia oferece à equipe interdisciplinar, instrumentos para a compreensão do quadro apresentado por uma criança privada de sua capacidade de aprender. Consequentemente, torna possível uma atuação terapêutica, provinda de várias disciplinas, que nos reporta à possibilidade do sujeito ser autor de seu pensamento, de sua ação, de seu desejo.
Flávia Teresa de Lima
Mestre em Psicologia Educacional, especialista em Psicopedagogia e graduada em Pedagogia e em Terapia Ocupacional. Extensão em Gestão da Educação Corporativa pela FIA.
Profissional da área de Saúde e Educação há mais de 25 anos, com experiência nos setores privado e particular. Coordenou cursos de Pós Graduação em Psicopedagogia e Neurociência na Educação. Atuou como coordenadora educacional e pedagógica de Ensino Fundamental e Ensino Médio. Ministra palestras e desenvolve projetos de assessoramento educacional e psicopedagógico com foco na inclusão escolar, capacitação de professores e orientação a pais. Idealizadora e administradora do site www.falandoemeducacao.com.br.

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