Limites, Autonomia e Aprendizagem Escolar

January 19, 2016

Flávia Teresa de Lima
Terapeuta Ocupacional – Pedagoga
Psicopedagoga
Mestre em Psicologia Educacional


Introdução
Este texto baseia-se no conteúdo de uma palestra ministrada para alguns pais, cujos filhos são alunos da Educação Infantil na Fundação Bradesco (Osasco – SP).
O tema, sugerido pela coordenação e direção desse segmento escolar, veio ao encontro de uma grande demanda atendida por mim, no consultório; ou seja, as dúvidas e a incapacidade dos pais em darem limites aos filhos, sem contudo, terem consciência das consequências disto no futuro.
O objetivo é mostrar a importância dos limites na aquisição da autonomia pela criança; e a implicação disto no processo de aprendizagem escolar.

Meu intuito não é fazer críticas ou julgamentos. Pelo contrário, busco acolher as angústias e dúvidas, orientar pais e professores e, através de uma reflexão baseada na realidade e não em devaneios “psi”, dar algumas respostas que possam efetivamente contribuir para o dia a dia de famílias e escolas. Respostas estas encontradas em anos de estudos, prática clínica e na minha jornada pessoal enquanto mãe. Sinto-me, portanto, muito à vontade em escrever as considerações que se seguem. Vamos a elas!

 

Crianças não são anjos! E nem troféus!
Começo afirmando que crianças não são seres inocentes e inofensivos. Pelo contrário, são manipuladoras, chantagistas, sedutoras e, muitas vezes, perversas.
Esta consideração pode nos trazer certo incômodo, mas, penso ser importante fazer esta “desconstrução” da imagem que foi criada da infância e da criança, para que os pais possam se sentir menos culpados e menos devedores de seus filhos. Sim, devedores! Pois, parecem que estão sempre em dívida com seus pequenos, em relação ao amor, atenção, carinho, paciência e compreensão; e, além disso, acreditam que devem suprir TODAS as vontades materiais por eles demandadas. Para isso, os pais trabalham, trabalham, trabalham; e lhes faltam horas de convívio com seus filhos.Para entender um pouco mais sobre o comportamento das crianças é importante lembrarmos que elas são regidas pelo princípio do prazer e isto as leva a fazer qualquer coisa para que suas vontades sejam supridas, de preferência, imediatamente. Para conseguir seus objetivos, desenvolvem mecanismos de manipulação muito eficazes e podem se tornar verdadeiros carrascos de seus pais. Estes, inseguros e inundados por teorias que fazem apologia aos “traumas” que um “não” pode causar no desenvolvimento emocional de seus filhos, viram escravos destes pequenos déspotas em desenvolvimento.Por outro lado, vemos que na sociedade atual, os filhos tornaram-se troféus a serem exibidos pelos pais. E, para fazer jus ao posto, as crianças são exaustivamente estimuladas para se tornarem “mais inteligentes”; devem ser bilíngues aos dois anos de idade e devem demonstrar todas as suas habilidades “touch”, manipulando Ipads, celulares, tablets, etc. Precisam também ostentar os mais caros brinquedos e, por que não, as inúmeras viagens a Disney. Tudo isso, para suprir o narcisismo de seus pais.

Porém, neste cenário, penso que os menos “culpados” sejam justamente as crianças que, não podendo contar com a figura do adulto para norteá-las em seus comportamentos, crescem sem limites e sem autonomia.
Costumo dizer que estamos na sociedade dos pais inseguros que não conseguem colocar limites em seus filhos, e das crianças “pudim”, aquelas que desmoronam ao primeiro “não” que lhes é colocado.

 

A “moral”, o “educar” e a “autonomia”.
A palavra “autonomia” remete à ideia de independência, liberdade ou autossuficiência e pode ser entendida como a capacidade de se governar pelos próprios meios.
Não nascemos com autonomia; ela é produto de um processo de construção que envolve educação e disciplina, resultante de um aprendizado ético, que leva o indivíduo a fazer o que deve ser feito, independente da presença do outro e em conformidade com as regras sociais.

Por essa razão, ao contrário do que se possa pensar, a autonomia não é fazer “o que se quer”, “da maneira que se quer”, “na hora que se quer”. Também não é simplesmente “fazer sozinho”. Pelo contrário, o indivíduo adquire autonomia porque se submete à moral, agindo de acordo com as regras e limites que lhes são atribuídos ao longo de seu desenvolvimento.
A educação reside neste cenário atestando sua importância, pois, educar é ensinar o que é certo/errado; o que se pode/não pode fazer; o que é aceitável ou não; é deixar marcas de pertencimento. Ou seja, a moral nos é transmitida através do ato de educar, praticado por nossos pais, professores, amigos e assim por diante. As regras e limites, partes integrantes da educação, servem de suporte para esta formação do sujeito social.

 

 

Aprendizagem escolar: resultado da aquisição da autonomia.

Conforme caminha na construção de sua autonomia, a criança desenvolve-se de forma global, com resultados que podem ser observados nas áreas motora, cognitiva, emocional, psíquica e intelectual.

É uma criança que explora o ambiente, anda, corre faz tentativas com seus brinquedos e objetos, questiona e investiga. Dependendo da idade, realiza sozinha, apenas com supervisão, atividades relacionadas aos seus cuidados pessoais como: tomar banho, vestir-se, comer, ir ao banheiro e dormir em seu quarto. Além disso, a criança autônoma tem instrumentos psíquicos e emocionais próprios para enfrentar conflitos e suportar frustações, normais á sua idade cronológica.

A aprendizagem escolar depende muito desse processo, pois, só com autonomia, a criança é capaz de dar sentido e significado próprios ao que lhe é oferecido enquanto possibilidades de aquisição de conhecimento.

Permanecendo na anomia ou na heteronomia, estágios anteriores à conquista da autonomia, a criança não se entrega ao ato de aprender, pois o egocentrismo prevalecente a impede de se colocar à disposição do conhecimento que lhe é oferecido pelo outro. Aprender a ler e a escrever impõe limites e também a aceitação de regras inerentes aos processos de leitura e escrita, além de exigir uma razoável tolerância à frustração, pelas hipóteses

tecidas que não se fazem verdadeiras e que, por isso mesmo, requerem novas tentativas. Este processo, tentativa–erro-tentativa-acerto, repetido inúmeras vezes, leva a criança à compreensão de como a escrita se estrutura, bem como a leitura; ou seja, este é o caminho para a alfabetização.

Sem a aquisição da autonomia pela criança, nada disso se torna provável.

 

O papel dos pais é de educar.

Neste caminho de construção da autonomia pela criança, cabe aos pais educar seus filhos, transmitindo valores, impondo limites e cobrando disciplina. Agindo desta forma, estarão criando indivíduos mais competentes, mais éticos, mais livres, mais felizes e mais conscientizados de seus papeis de cidadãos em um mundo mais sustentável.

Educar é ensinar e ajudar a criança a construir sua autonomia. E isto deve ser feito pelos pais que, deixando de lado seu próprio narcisismo, podem exercer o ato educativo do qual dependem seus filhos. Sempre com amor, disponibilidade interna e verdadeiro interesse.

 

Flávia Teresa de Lima

Mestre em Psicologia Educacional, especialista em Psicopedagogia e graduada em Pedagogia e em Terapia Ocupacional. Extensão em Gestão da Educação Corporativa pela FIA.

Profissional da área de Saúde e Educação há mais de 25 anos, com experiência nos setores privado e particular. Coordenou cursos de Pós Graduação em Psicopedagogia e Neurociência na Educação. Atuou como coordenadora educacional e pedagógica de Ensino Fundamental e Ensino Médio. Ministra palestras e desenvolve projetos de assessoramento educacional e psicopedagógico com foco na inclusão escolar, capacitação de professores e orientação a pais. Idealizadora e administradora do site www.falandoemeducacao.com.br.

 

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